A minha parte eu fiz.

Semana passada eu presenciei uma cena inusitada (talvez nem tanto). Estava esperando minha namorada sentado em um estabelecimento comercial, quando o dono do lugar sobe as escadas nitidamente irritado e, sem ligar muito para mim ou os outros dois clientes que estavam na sala, começa a discutir com a secretária, perguntando porque Fulano não foi fazer a entrega à Ciclano. A resposta da secretária foi curta, simples e precisa. “A minha parte eu fiz”. Ela complementou a frase com algo que nem lembro mais, mas essa primeira frase foi marcante.

O que estava acontecendo? Uma entrega não foi feita. Um cliente está insatisfeito. Um chefe está irritado e a secretária não quer correr o risco de ser culpada pela entrega não feita.

Já viram algo semelhante na empresa onde trabalham? Acho que muitos vão responder afirmativamente.

A ação do dono do lugar nitidamente foi uma caça às bruxas. Ele nem pensou que talvez resolver o problema do cliente fosse melhor que procurar o culpado.

Mas o que me chamou a atenção dessa vez foi a ação da secretária.

Sem pensar duas vezes, ela se exime da culpa. Após se eximir da culpa, ela foi tentar solucionar o problema. Essa sequencia de ações mostra que existe algo de muito errado dentro dessa empresa.

Se antes de procurar qualquer solução a pessoa precisa deixar claro que não é culpado, nitidamente existe uma relação de opressão (afinal, se ela for a culpada e o cliente importante, ela pode ser demitida). A cultura dessa empresa não permite erros. Se não permite erros, não permite aprendizado.

Deixemos essa empresa de lado e pensemos em nossas empresas. Trabalhamos com TI, correto? Seja desenvolvendo, gerenciando, dando treinamentos, ou qualquer outra coisa. Para TI, aprendizado e inovação são simplesmente vitais. A cada dia temos que fazer coisas que ninguém nunca fez antes. Cada linha de código nunca foi escrita antes (pelo menos não por aquela pessoa naquele projeto). Com certeza vamos errar. E quando errarmos, o que vai acontecer? Se você estiver em um ambiente opressivo, aprendizado não vai ser a sua primeira preocupação.

Uma das coisas que aprendi lendo o Artful Making do Lee Devin (e depois com o incrível treinamento homônimo também do Lee) é que para trabalhos criativos (como é o desenvolvimento de software) é necessário que exista um ambiente seguro para você errar, pois senão não conseguirá ir para frente. Errar deve fazer parte do seu dia a dia e não ser algo temido. Deve ser visto como uma oportunidade de aprendizado e não como um atraso no projeto.

Scrum é um processo empírico, correto? E processo empírico implica em errar e aprender com os erros. Para que Scrum funcione corretamente na sua empresa muitas vezes são necessárias mudanças culturais e comportamentais. Essa é uma delas.

jabreu

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