SAFe – Uma visão inicial de como escalar Agile

Imagine uma pessoa solteira por opção, que acredita que é uma péssima decisão casar e ter filhos. Imagine essa pessoa tentando aconselhar as ações e decisões de um casal com 4 filhos e que está tendo todos aqueles desafios típicos de uma grande família. Nesse cenário é fácil visualizar o solteiro emanando críticas, que no fundo, vão na linha de “vocês estão errados! Vocês deveriam era ter adotado a filosofia de não de ter filhos! É melhor para a sociedade etc.”.

O que você acha de uma abordagem como essa? Você há de concordar comigo que é, no mínimo, nada produtiva uma eventual discussão entre o solteiro e esse casal.  Baseados nessa metáfora, vamos analisar uma situação do mundo corporativo.  Tomando como referência uma empresa grande (casal com vários filhos) e um  time de desenvolvimento de software (solteiro),   seria igualmente pouco produtivo tentar ajudar a empresa grande, apenas com as ferramentas voltadas ao dia-a-dia do time e/ou do desenvolvimento de um produto. O ponto central da incongruência não é que uma empresa é mais importante ou mais complexa que um time, mas sim, os problemas de ser ágil em uma empresa inteira, com vários times, com diferentes partes de produtos, são diferentes (não melhores) de ser ágil em apenas um time autossuficiente.

É com o reconhecimento de que precisamos de uma abordagem apropriada para os desafios de adotar ágil em larga escala, que o SAFe vem ganhando um considerável número de experimentações ao redor do mundo.

Mas afinal, o que é o SAFe?

SAFe é um acrônimo para Scaled Agile Framework. É um modelo criado por Dean Leffingwell e mantido e evoluído pela Scaled Agile Academy . O SAFe é baseado em Scrum, XP (Extreme Programming), Lean e muita experiência de campo,  para a implementação de práticas ágeis em grande escala. Ele reconhece o que tipicamente tem funcionado bem no trabalho de times ágeis, na forma de fazer gestão de programa e na maneira  ágil tratar um portfólio de demandas organizacionais.  O SAFe fornece um conjunto de práticas para ajudar grandes organizações a responderem perguntas do tipo:  Como rodar ágil em contextos envolvendo vários times? Como sincronizar o trabalho desses times? Como coordenar o resultado do trabalho de times distribuídos geograficamente?  Como priorizar demandas em produtos robustos e dinâmicos? Como escalar uma arquitetura ágil? Como tratar, de maneira ágil, os riscos de um projeto complicado? Como ser ágil e estar em conformidade com modelos de governança?

SAFeBigPicture 

Um modelo de transformação respeitando o jeito de ser das empresas

Uma das características mais fortes do SAFe, é que o mesmo reconhece o jeito de ser de uma organização.  Isso dentro de uma empresa de grande porte, significa que o SAFe introduz a filosofia ágil na cultura organizacional e ajuda a empresa a gerar resultados, sem bater de frente com a estrutura e papéis existentes ou até mesmo, com a cola social vigente na organização.  Então, do ponto de vista estratégico, por ser um modelo que respeita o jeito de ser e a cultura das organizações, o SAFe tem ajudado o movimento ágil a chegar em empresas e em esferas que nunca conseguimos chegar antes.

O que difere o SAFe das demais abordagens ágeis. 

Como falei anteriormente, o SAFe bebe da fonte do Scrum, adota o XP com abordagem padrão para o time e, é fortemente inspirado pelo pensamento Lean para uma abordagem mais enxuta do portfólio de produtos. Então muito mais do que diferenças, o SAFe tem coisas complementares à todas essas abordagens.

Mas claro que o SAFe não é apenas um mix dessa práticas/abordagens. O SAFe oferece em encadeamento lógico de como ligar a estratégia da empresa (alto nível) à um ciclo de desenvolvimento realmente ágil (e vice-e-versa). Lembra da diferença entre os problemas e soluções de um casal com filhos para os problemas e soluções de um solteiro? Então, o SAFe obviamente introduz uma série de atividades, regras e papéis diferentes ao da abordagem pura do Scrum ou XP.   Essas peculiaridades, estão distribuídas principalmente nos níveis de Programa e Portfólio.  Por exemplo, se olharmos para maneira como o SAFe faz a gestão de portfólio, veremos que temos papéis mais específicos para o trabalho nesse nível,  então além de um trabalho forte de Program Portfolio Management,  também há o papel de Epic Owners. De uma maneira resumida, entenda que um Epic Owner é o responsável por grandes assuntos de negócio dentro um determinado objetivo de negócio (tema de negócio).

Mas o SAFe tem várias outras peculiaridades,  que em breve, escreverei com mais detalhes.

SAFe e Scrum

Note que na “cebola” do SAFe organizada em Portfolio Level, Program Level e Team Level,  o último nível (Team Level) é baseado em Scrum. No nível de time, ele trabalha com tudo aquilo que estamos acostumados no Scrum, então elementos como auto-organização, empoderamento da micro-gestão e colaboração são partes essenciais para o funcionamento do SAFe. Assim como o Scrum é um framework para a gestão do trabalho de times em ambientes complexos, o SAFe também é um framework para ajudar na gestão  ágil de vários programas organizacionais, de forma a fornecer para a empresa, uma maneira enxuta (maximização de valor e eliminação de desperdício) de gerar resultados em todo o seu portfólio de produtos.

SAFeScrumAndXP

Orientado à produto

O SAFe, ao contrário do que pode se imaginar, eleva ao máximo o conceito de organizar o trabalho por um forte senso de geração de valor. Uma das provas disso, é que dentro do SAFe, a disciplina clássica de gestão  de projetos (aquele conceito com início, meio e fim) praticamente desaparece.  No lugar dessa disciplina, o SAFe introduz fortemente a disciplina de gestão de produtos. Isso representa um salto gigantesco na maturidade com o qual as empresas devem lidar com a gestão de portfólio de seus produtos.   Para o SAFe, a forma de organizar a execução dessas demandas de trabalho sobre os produtos, é através de um conceito chamado ART.

ART – O coração do SAFe.

Na verdade, espero produzir vários e vários pequenos posts explicando os principais detalhes do SAFe, mas no momento, vamos entender o elemento central de todo o funcionamento do SAFe.

Esse elemento, nos termos do SAFe chama-se ART. ART é um acrônimo para Agile Release Train. ART é a forma do SAFe organizar a entrega de um épico de negócio (grande assunto em nível de Portfólio) dentro de um conjunto cadenciado e sincronizado de várias ações envolvendo diferentes times.

Sem entrar (ainda) nos pormenores de como funciona o ART, vamos nos ater na metáfora principal dele: O trem (train, em inglês).

A metáfora vem da ideia de: Um trem parte de uma estação e chega na próxima estação com um confiável agendamento.  Nesse caso, em termos práticos, teremos uma cadência fixa, uma velocidade “normalizada” e releases previsíveis.

Para colocar em prática essa metáfora, é necessário uma abordagem específica para organizar pessoas e processos ao redor da construção do ART.

Pessoas, pois um ART pode ser trabalhado por vários e diferentes times (cada um com sua respectiva Sprint). Então, vamos precisar de novos papéis para suportar a integração técnica e processual desses diferentes times. Essa é missão de um RTE (Release Train Engineer) – Em breve escreverei sobre esse papel também.

Processos, pois para entregar o incremento de produto gerado por um trem, que tem vários times trabalhando nele, será preciso trabalhar com mais de uma Sprint com a mesma cadência de início de fim para todos os times. Além de claro de outros detalhes que em breve escrevei aqui no blog.

Apenas uma coceira no cérebro

Bom, a ideia desse breve texto, foi gerar apenas uma pequena coceira no seu cérebro sobre o SAFe. Por tratar de um assunto crítico para as organizações (Agile em larga escala),  SAFe é um assunto realmente vasto. Portanto, conto com  feedbacks vindos por comentários, e-mails, tweets para me ajudar a compor um norte dos próximos assuntos que escreverei sobre o mesmo.

Também aproveito para convida-lo, a fazer parte do grupo SAFeBrazil (grupo de discussões no facebook – http://www.facebook.com/groups/SAFeBrazil).  Lá poderemos trocar mais figurinhas sobre o assunto e até mesmo esclarecer mais alguns detalhes sobre o SAFe e sobre o assunto Agile em larga escala de maneira geral.

Mais referências:

scaledagileframework.com

Manoel Pimentel

One Comment

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *